História Bombeiros Dafundo


Povoação situada a oeste de Lisboa, Dafundo foi em tempos, local nobre e domingueiro, muito apreciado para passeio, almoços, festas e jantaradas, não só de operários mais endinheirados, dado tratar-se da zona mais industrial do Concelho, mas muito especialmente de jornalistas, escritores, filosófos, e outras figuras de relevo, que aqui se deslocavam para um dia bem passado.

Já em 1848, no Dafundo foi estreada a peça em um acto, intitulada “O Noivado no Dafundo”, de Almeida Garrett. Foi assim neste ambiente, que em Março de 1912, um grupo de homens bem formados sentiu a necessidade imperiosa de formar uma Corporação de Bombeiros, pois os incêndios sucediam-se com frequência e o socorro às populações era cada vez mais urgente. Por conseguinte, um grupo de homens, que se reuniam diariamente numa tertúlia de boa pândega, com ânsia deitaram mãos à obra e fundaram a Associação em 11 de Março de 1912, também com o intuito de efectuar serviços de saúde com os seus postos de socorro devidamente equipados.

Inicialmente houve uma primeira preocupação em arranjar um local para a instalação de uma sede. Foi então que a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Dafundo, teve como primeira sede, a dependência de uma antiga fábrica de sabão, perto do “Galão de Ouro”, na Rua Policarpo Anjos, numa pequena dependência, onde o Sr.Francisco Porquinhas guardava o gado. Ali estiveram quatro anos, onde albergaram a primeira bomba manual (Bomba – Capacete), oferta do então Ministro das Finanças, Dr. Afonso Costa, a pedido dos fundadores e da influência do Pedreiro José de Oliveira, não esquecendo que o Primeiro Comandante, foi o Sr. João Paulo Sacramento, ilustre filho da terra.

Os estatutos da recém criada Corporação de Bombeiros do Dafundo foram aprovados em 16 de Março de 1913, tendo-lhe sido passado alvará a 3 de Abril desse mesmo ano, e reconhecida de Utilidade Pública, por decreto de 12 de Dezembro de 1933.

Em 1912, as quotas dos Associados eram de 20 escudos, passando em 1914 para 30 escudos, e em 1918 para 50 escudos. Volvido um ano de actividade, a dependência que ocupavam tornou-se demasiado pequena, não correspondendo ao progresso da nova associação, tendo sido transferida para o nº52 da Rua Policarpo Anjos, onde até aí funcionava a Adega do Papagaio. Prédio adquirido pelo Sr. Bernardo Manuel Pereira, por 24 contos, após serem feitas obras de adaptação, e a Associação ali se manteve até Novembro de 1974.

As primeiras viaturas de “Tracção Braçal”, bem como as diferentes bombas manuais e motorizadas que equiparam os Bombeiros do Dafundo ao longo da sua existência, constituem nos nossos dias um importante património histórico da Associação, as quais testemunham e retratam épocas onde foram de extrema importância, dado que eram peças indispensáveis ao serviço do bombeiro. Uma dessas peças muito importante na época, foi a aquisição da primeira viatura construída e equipada como Pronto Socorro Nevoeiro, moderna e eficiente tanto no combate a incêndios como a inundações.

Assim e logo após a aquisição da primeira bomba, oferecida pelo então Ministro das Finanças em 1912, foi adquirida a primeira viatura da Associação, sendo o elemento transportador da “Bomba Belga” tipo Flaud e primeira viatura de tracção braçal com duas rodas de madeira. Em 1914, surge a segunda viatura de tracção braçal, equipada com bomba caldeira do tipo Flaud aspirante premente, que veio melhorar fortemente os meios de socorro da Corporação. Em 1915, os responsáveis da Corporação efectuaram a aquisição de uma “Maca Rodada”, que prestou inúmeros serviços de transporte de doentes e feridos aos Hospitais de Lisboa.

Aparece também em 1915, a terceira viatura braçal, um Carro de Escadas. Naturalmente, as seguintes bombas do serviço de incêndios foram evoluindo de igual modo, acompanhando o progresso tecnológico.

E assim caminhando, cumprindo o seu programa de mais e melhor, foi mais tarde o Sr. Eurico de Castro Alves, o nº3 de matrícula, quem fundou o seu serviço de saúde, com uma maca manual sobre duas rodas, e um Posto de Socorros, com a valiosa colaboração do ilustre Médico Dr. João Carlos Simões Alves, nº107 de matrícula. Até aqui o Serviço de Saúde estava sob o camando do Dr. Alves Moreira, nº24 de matrícula, este último louvado pelos relevantes serviços prestados no incêndio ocorrido na Rua Direita nº8, onde houve vários feridos, em Julho de 1915. Neste mesmo ano, são feitas as primeiras fichas individuais impressas em 500 exemplares, na Tipografia F. Andrade. A quarta viatura surge em 1916, ano em que é construída por diversos bombeiros, designada por “Pronto-Socorro Braçal” ou “Carro de Material” e equipada por diversas ferramentas e mangueiras

Sob o comando de Henrique de Oliveira, nº5 de matrícula, a Associação tentava modernizar-se, e fazer face aos incêndios que iam surgindo na zona, em especial em toda a Freguesia de Carnaxide, em Palheiros e Eiras. Este Corpo de Bombeiros possuía três viaturas manuais e um Corpo Activo impecável, satisfazendo as necessidades da época, nomeadamente no levantamento e transporte de feridos aos Hospitais, durante o período revolucionário de 5 a 8 de Dezembro de 1917. O Serviço de saúde deste Corpo de Bombeiros, prestou importantes serviços ao Concelho e a cidade de Lisboa, serviços esses efectuados com maca manual.

Consequentemente, várias condecorações foram entregues, nomeadamente ao bombeiro nº1, Sr. Manuel da Silva, condecorado com a medalha de cobre de Serviços Distintos da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, por Portaria da Secretária do Estado da Guerra, de 20 de Julho de 1918, publicada no diário do Governo nº182 – 2º Série.

Em 1918, o Corpo de Bombeiros, velou e compareceu no funeral do Exmo. Sr. Presidente da Républica, Dr. Sidónio Pais, no dia 21 de Dezembo de 1918, alvo de Louvor do Ministério do Interior.

Em 1922, chegou a primeira Viatura Automóvel de marca Braziere, equipada com Bomba Manual, a que fazia parte da primeira viatura manual, entretanto desmantelada. Esta viatura foi inaugurada no decorrer das festividades do 10ºAniversário, as quais decorreram com enorme brilhantismo e os elementos que mais se destacaram receberam imensos louvores.

Em 1934, surge a Moto-Bomba “Flader Victória” que representa a passagem das bombas manuais para as motorizadas.

Na primeira década de vida da Associação passaram pelas suas fileiras 78 elementos bombeiros, os quais integravam dois quadros, o combatente e o serviço de saúde, os meios materiais eram escassos e as dificuldades eram muitas.

Nessa década existiram apenas seis comandantes, uma vez que as dificuldades de recrutamento eram grandes devido a Primeira Guerra Mundial, que não deixava os homens livres para poderem alistar-se nos bombeiros.

Ao longo das dez décadas de existência do Corpo de Bombeiros do Dafundo, os seus quadros foram sendo chefiados, primeiro por Bombeiros Chefes e depois por Chefes e Sub Chefes, que foram em muitos casos, os grandes dinamizadores directos do Corpo Activo, ao ministrar instrução e ao chefiar os serviços internos e externos.

Relativamente ao rejuvenescimento dos Quadros de Pessoal, os Bombeiros do Dafundo procederam à criação do seu primeiro Corpo de Cadetes, em finais de 1946, conforme Ordem de Serviço nº114 de 16 de Novembro, altura em que o governo toma a iniciativa de publicar o primeiro Regulamento Geral dos Corpos de Bombeiros Decreto lei nº35.857, de 11 de Setembro, integrando os jovens no quadro auxiliar. Na época foram os bombeiros do Dafundo, a segunda Corporação do Concelho a possuir cadetes nos seus Quadros.

Ao longo dos tempos, a Associação continuava a servir com grande vontade e persistência, embora com grandes dificuldades económicas. Por conseguinte, as campanhas de angariação de fundos sucediam-se, para renovar o material e para responder ao aumento das solicitações, dado que a Associação reconhecida de Utilidade pública, ocorria a inúmeros socorros, tanto de serviço de incêndios como de saúde.

Importa referir, que a Associação transitou das instalações da fundação para as actuais somente em 1974, onde veio a crescer significativamente sendo que a qualidade do material sofreu igualmente grande transformação, assim como a quantidade de serviços prestados.

Esta transição, surgiu da necessidade de um novo e funcional quartel sede, que possuísse instalações condignas para os bombeiros e para o seu material de socorro, pois a falta de espaço asfixiava o desenvolvimento da Associação.

Consequentemente, a 13 de Junho de 1969 surge uma solução, quando os três Presidentes dos Órgãos directivos se deslocaram até a Câmara Municipal de Oeiras para se reunirem com os proprietários dos terrenos da Quinta de S. Pedro, com o Presidente da Câmara e diversos engenheiros da edilidade, onde foram trocadas impressões concretas acerca das necessidades da Associação, e onde foram estabelecidas negociações para a concretização do tão esperado quartel sede.

Por fim, a 27 de Agosto a Câmara Municipal de Oeiras anuncia a cedência definitiva de 275 metros quadrados de terreno na Quinta de S. Pedro para a construção do novo quartel. As obras tiveram o seu início no dia 12 de Setembro de 1971 e finalizaram em 31 de Janeiro de 1973, quando a Câmara Municipal, convoca a direcção da Associação para o acto oficial de entrega das chaves do novo quartel.

Apesar de ter sido tão aguardado, ao longo dos anos seguintes, o quartel começou a não satisfazer em muitos aspectos as necessidades, para além de não corresponder ao progresso constante verificado nos diversos domínios.

Até que em 1985, é tornado público a necessidade urgente de novo quartel devido ao agravamento dos problemas estruturais, que continuaram a intensificar-se até o ínicio da década de 90.

Depois de inúmeros contactos, reuniões e solicitações para que surgissem novas instalações e após anos de espera, finalmente a 16 de Novembro de 1996 o novo quartel na Avenida Duque de Loulé em Linda-a-Velha foi edificado, dando desta forma outras condições de trabalho aos Bombeiros de então e continuando a servir com satisfação os bombeiros de hoje, fazendo face às diversas solicitações que diariamente lhes são canalizadas.

Desde então, a Associação não parou de crescer e no fundo, de engrandecer a missão de Salvar Vidas e bens.

Hoje para além do projecto inicial, consta já um Museu Automóvel inaugurado neste mandato e que tem a particularidade de conter viaturas todas recuperadas inclusivamente ao nível do motor ESTANDO TODAS EM PERFEITO ESTADO DE FUNCIONAMENTO.

A 11 de Março de 2012 foi inaugurado o piso inferior do referido Museu, contendo um Auditório Multiusos que servirá para engrandecer culturalmente a nossa Associação por intermédio da realização de conferências e palestras, entre outras actividades de elevado nível.